Acabou. E depois?
A última vez que me lembro de ser totalmente vulnerável com um parceiro foi contigo, Rodrigo. Lembraste quando nos conhecemos? Tivemos o melhor date de sempre. Fui sem expetativas. Não me eras nada, mas também não ia impedir que te tornasses algo. À primeira vista, não tínhamos nada em comum. Falámos, bebemos, dançamos, rimos. Fomos para tua casa e só dormimos. Eras um estranho, mas senti-me bem na tua presença. Desde cedo.
Rapidamente abriste-me as portas para o teu mundo. E eu sempre reticente. Tu não tinhas dúvidas e eu tinha-as pelos dois. Tivemos conversa atrás de conversa e eu continuava receosa. Chorava muito. Por tristeza, por medo ou talvez só por indecisão. Apareceste numa altura em que tudo era novo para mim e eu não sabia o que queria. Continuo sem saber. Foste um porto seguro para mim e contigo permiti-me cada vez mais ser eu.
Ao mesmo tempo que eu ganhava confiança e um espaço maior na tua vida, eu e tu fomo-nos afastando. Era difícil moldar-me a ti. Tentei, mas nunca era o suficiente. Vivi um mês na tua casa. Fazíamos planos de vivermos juntos sem existir este quarto alugado onde escrevo isto agora. Eu e tu éramos presente, mas também éramos futuro. Um futuro adulto que nunca tinha tido com ninguém. Casa, filhos, ex mulher, dinheiro, carros, empregadas domésticas. Nunca me fizeste sentir pequenina ao pé de ti, e por isso, agradeço-te. Senti que era capaz de cuidar dos teus dois filhotes e com essa confiança, eu conseguia tudo. Eu ia conseguir ser mulher, madrasta e ainda, uma miúda.
As dúvidas continuaram a existir, mas fui repetindo para mim mesma que era tudo da minha cabeça, que eram invenções com o intuito de auto-sabotagem. Esta coisa dos mantras não é mentira. E eu acreditei. E fiquei confortável. Com a tua t-shirt, na tua casa, com os teus bebés, a tua empregada, os teus dramas pessoais e profissionais. E eu. Quem era eu? Quem sou eu?
Naquela noite, senti-te diferente e senti que não era da minha cabeça. Falámos e disseste-me que tinhas saudades dela e da tua vida anterior. Como? Senti-me enganada. Nunca vais saber isto, mas fiquei mais zangada comigo do que contigo. Andreia, porquê é que andaste a fingir que poderias ser mulher, madrasta, com uma t-shirt que não era tua, numa vida que não te pertencia? Para a próxima, não deixes avançar. Como é triste estares num sábado de manhã num uber a chorar com a tua roupa dentro de sacos do continente. Passares o dia inteiro no trabalho a chorar como se tivesse morrido alguém. E morreu. A Andreia que poderia ter sido, e não fui.
Depois disto tudo, semanas depois tiveste a audácia de me faltar ao respeito. A mim. A Andreia que voltou, a durona que não quer saber de nada nem ninguém, aquela que nunca mais se vai permitir ao mesmo, aquela que agora só sai deste quarto alugado para outro quarto alugado. Ou casa. Mas sozinha. Sempre sozinha.
Não quero ser assim. Mas ainda não sei ser doutra forma. Será que só preciso de tempo? Que me apareça outro Rodrigo, e outra noite em que falamos, bebemos, dançamos e rimos.
E no fim, seja em que casa for (mesmo que não seja em nenhuma), que eu seja capaz de estar. Ali. Naquele momento. Sem medo.
(8 de agosto de 2023. 22h54.)
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